quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Deve ser Difícil ser Você
Você não pede, manda.
Você não fala, exclama.
Deve ser difícil ser você.
Você não chama, intima.
Não se aborrece, briga.
Deve ser difícil ser você.
Às vezes até reconhece,
Mas não sei o que acontece:
você não faz acontecer.
É chateante. Não diga.
É estressante. Mentira!
Tudo gira em torno de você.
Todos te devem,
Todos te julgam.
Alguém devia
Querer saber
Como vai você?
Todos toleram.
E que tolerem!
Não vou mudar,
Pra que mudar?
Por sua causa?
Ãh? Você?
Mas que bobagem
Essa vidinha:
Você na sua
Eu na minha
E ninguém por mais ninguém.
Ééé... deve ser difícil ser você.
Poderosa? Sem dúvida!
Querida? Ainda.
Tolerável? Graças às mil boas almas que cruzam o teu caminho.
Mas e as almas de lá e de cá que te inspiram,
Te ajudam
E cuidam de ti de um jeito que você jamais cuidaria de alguém como você?
Mas... e você?
O que a tua própria alma te diz de você?
É muito difícil ser.
quinta-feira, 20 de março de 2014
O Santo e a Porca
Esta obra, datada de 1957, retrata basicamente o conflito entre o materialismo e a fé. Ariano Suassuna, com sua maestria em criar histórias irreverentes e de profundidade moral é o autor da obra.
Três mulheres apaixonadas procuram resolver suas questões
amorosas, encaminhando o andamento de seus possíveis casamentos, enquanto o
patriarca da família de duas dessas mulheres divide-se, alucinadamente, entre
sua devoção por Santo Antonio e sua avareza, consolidada em uma porca de
madeira cheia de dinheiro dentro, herdada de seu avô. O apego à porca aumentou
desde o falecimento de sua esposa, a quem devotava imenso amor e dependência
emocional. Há também a questão de sua filha, com quem pretende casar com um
homem de posses que lhes garanta o futuro.
A confusão se instala pela constante desconfiança de Eurico,
dono da porca, sobre todos os outros frequentadores de sua casa. Ele fica
sempre à espreita de flagrar alguém furtando seu dinheiro. Além deste fato,
Caroba, uma das pessoas que trabalha em sua casa, com sua astúcia e
boa vontade, cria toda uma situação para que os casais enamorados possam se
juntar sem que haja escândalos perante a sociedade e nem desgostos sentimentais.
No final da trama Eurico descobre que de fato foi furtado e,
desolado, cai em desespero. Graças à astúcia de Caroba e à contribuição de
todos os outros, os entraves que impediam que os casais ficassem juntos foram
eliminados. O sumiço da porca pouco depois também foi solucionado e, absorto em
sua avareza, Eurico nem havia se dado conta de que todo o dinheiro que havia lá
de nada mais valia, pois fora substituído ao longo dos anos. Irredutível,
Eurico permanece preso ao seu apego pelo objeto, e embora todos em torno dele
terem tentado dissuadi-lo de permanecer só e juntar-se a uma grande família que
se formava, optou por permanecer sozinho, dividindo-se entre as conversas com
Santo Antonio e as lamúrias acerca do fato de ter uma porca de pouca valia para
lhe garantir a tão sonhada velhice tranquila.
A história nos remete ao quanto frequentemente nos
preocupamos com questões secundárias ao nosso bem-estar e deixamos de desfrutar
o que a vida tem de melhor a nos oferecer. Uma velhice tranquila seria muito mais
efetiva estando rodeado pela família, com seu sustento garantido - já que o
noivo de sua filha era filho de um fazendeiro possuidor de muitas terras, do
que sozinho e preso a o que lhe resta de material.
Levando essa história para a vida de cada um de nós, dentro
de uma comparação, certamente seremos capazes de perceber que nossa vida
continua, apesar das "porcas", dos "santos" e das situações
do passado que insistimos em nos devotar cega e continuamente. Qual é a nossa
verdadeira riqueza?
segunda-feira, 17 de março de 2014
Jacinta
O que leva uma pessoa a enfrentar as mais terríveis adversidades e seguir adiante? Será um ideal, uma teimosia, uma tolice? Ou será um apelo desesperado da consciência, clamando para ser levada em consideração na hora de se encarar a vida? Seja como for, esta foi a opção de Jacinta, magistralmente interpretada por Andrea Beltrão, que esteve em cartaz no SESC Vila Mariana.
Eu, como atual estudante de teatro, pude perceber a
diferença de assistir a uma peça vendo o ator como alguém distante, dono de um
sonho que também é meu, e como colega de trabalho, alguém que compartilha dos
mesmos desafios e deleites do ofício de ser.
Sim, o parágrafo acima termina com a palavra “ser”, pois
quando se busca preencher a essência, escutando e seguindo a consciência,
simplesmente se é e nenhum adjetivo pseudo-complementar poderia concluir de
fato tal afirmação.
Persistir, ir adiante, enfrentar os traumas, os fantasmas e
as tormentas do dia a dia é um trabalho para cada um de nós: diretores de
nossas próprias peças, condutores de nossas próprias vidas.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Sidarta
Um romance, uma ficção, uma utopia. Uma vida narrada por si mesmo, uma autobiografia, uma experiência transcendental. Características de Sidarta, escrito em 1922 por Herman Hesse.
O romance, alusivo ao mestre ascenso Sidarta Gautami, o Budha, trata com leveza e realismo as sutilezas energéticas a que estão expostos os seres durante a experiência humana.
A personagem central da história é um garoto nascido em família abastada, porém voltado aos costumes religiosos de meditação e busca do Eu superior. Ainda criança Sidarta decide deixar a família para trilhar a senda espiritual e alguns anos depois, no início de sua vida adulta, ele novamente muda de rumo e decide buscar a si mesmo junto ao homem comum, vivendo uma vida comum, de preocupações e rotinas comuns.
Luxúria, dinheiro, jogos e distrações ébrias fazem parte da nova vida de Sidarta, que durante algumas décadas julgou-se capaz de assimilar este tipo de vida em detrimento de escutar a voz de sua centelha divina. Funcionou, até uma certa noite quando, sentindo-se verdadeiramente morto, optou por abandonar novamente sua “vida”, deixando para trás as propriedades, os negócios e a amante.
Voltando a viver como um renunciante às coisas do mundo, Sidarta percebeu o que lhe faltava e encontrou o equilíbrio entre o mundano e o divino, entre o material e o espiritual, entre o ter e o ser.
Percebe que todas as doutrinas são falhas, a partir da constatação de que não se pode amar palavras e passa a abençoar a tudo o que existe. Constata a existência do tempo presente como sendo o único real e encontra-se, finalmente, a partir da reintegração com a Mãe Natureza.
Para mim, Sidarta é mais do que um livro sobre curiosidades do que venha a ser a prática do auto-conhecimento sob a ótica da análise entre a alma e a matéria e tudo o que cada um desses cenários envolve. Sidarta é, por si só, um objeto de estudo nesse caminho, uma sugestão ao perdão de si mesmo, um convite à expansão da consciência e um retrato da integração do eu à unidade, resultando naquilo que se chama de paz.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Quem Mexeu no meu Queijo
Saiamos da zona, gente!
A partir
deste momento sua vida vai mudar, drasticamente. Você vai ver seu castelo
desmoronar diante de seus olhos com todos os pertences, nada há que você possa
fazer, exceto...
Este é o
ponto crucial de Quem mexeu no Meu Queijo. O livro tem menos de 40 páginas, dá
para ler brincando, e a história, embora apresente caráter pueril, é muito
séria. Ela nos convida (com todo o respeito) a sair da zona. A zona de
conforto, aquele cantinho da nossa casa escuro e úmido, mas tão familiar que
chega quase a ser aconchegante! Se você costuma dizer frases como “ruim com
ele, pior sem ele”, cuidado: você é um inquilino da zona em potencial!
A mudança é
necessária à transformação do ser e por mais que tentemos resistir, este é o
nosso caminho, que requer equilíbrio e (muita!) constância. É difícil largar
hábitos, por mais autodestrutivos que sejam, encarar situações desastrosas, no
mais, superar desafios. Entretanto, as descobertas que surgirão adiante são compensadoras,
certamente.
Petisco: Metamorfose Ambulante, de Raul Seixas.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Paramahansa Yogananda – Autobiografia de um Iogue
Quanta beleza carregam as 500 páginas da autobiografia de Paramahansa Yogananda. Desconsiderando o número de páginas, percebe-se a fluidez que a narrativa apresenta: delicado nas palavras, rico em detalhes e permeado de bom-humor, esse mestre retrata com clareza sua trajetória na Terra, como ativo missionário do Divino.
Durante a
narrativa, notamos que em nenhum momento ele, que teve uma passagem incrível
por este planeta, projeta-se como alguém diferente ou superior aos demais,
revelando humildade e abnegação a cumprir seu caminho guiado pelo Alto,
trazendo ao Ocidente a kriya yoga, verdadeiro portal para acesso a... nós
mesmos.
A obra,
deliciosa, nos deixa ao final com “gostinho de quero mais” e fatalmente será
relida por quem teve um primeiro contato, pois tudo o que é bom e verdadeiro
merece permanecer dentro de nós, nos impulsionando adiante com mais momentos de
serenidade e aceitação de nossa condição de eternos aprendizes.
Petisco: om mani padme hum, mantra que significa "saúdo a joia do lótus". Bom apetite!
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
O Alienista
Nada aquém de brilhante, nada além de perfeito. Tal é a definição das obras de Machado de Assis, em minha opinião. A riqueza de vocabulário, aliada ao mais perfeito equilíbrio com a clareza das narrativas levam-me à conclusão – ainda que desconheça todos os autores clássicos brasileiros – de que este certamente abre vantagem sobre qualquer outro, em se tratando de qualidade literária.
O Alienista,
conto magnífico, elaborado sobre questionamentos acerca de sanidade mental,
apresenta características analíticas que vão desde hábitos diários a questões
morais: pessoas de conduta exemplar são realmente “normais”? Manias aparentes e
às vezes desconcertantes atos poderiam atestar insanidade?
A obra
encerra em si o poder de nos levar a refletir sobre vaidades, Ciência, crenças
e obviamente, a linha tênue que separa insanidade de loucura. Uma delícia que
se saboreia em poucas horas, cuja digestão certamente leva muito mais tempo,
graças à irrecusável entrega a que Machado de Assis nos submete.
Petisco: Maluco Beleza, de Raul Seixas.
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