quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Giramundo!


Um dia eu ganhei um giramundo, faz quase um ano, e fiquei muito contente. Era um artesanato feito por uma senhora, era lindo e no saquinho vinha logo dois, de diferentes tamanhos... como não gostar? Senti algo muito bom, porque adoro receber presentes com um toque feito pela pessoa que presenteia e por vezes também faço isso para presentear alguém. Mas senti algo mais naquele momento... e guardei essa sensação e essa lembrança comigo.

Um belo dia resolvi "ativar" meus giramundos, ou seja, tirar do saquinho e fui pesquisar o que significava ele, porque pelo o que sentia, eu desconfiava que era algo além de "simplesmente" uma estrela muito bem feita. Enfim.

Descobri coisas incríveis sobre ele, como por exemplo, o fato dele ser uma peça feita por tradição desde o período colonial, quando as mães, que haviam guardado retalhos de roupas das filhas (do vestidinho do batismo e outras datas importantes que marcam etapas de desenvolvimento da mulher - olha o significado disso!), montavam a estrela e presenteavam as filhas no dia do casamento.

Era comum as mães e filhas não se verem mais depois do casamento caso as fazendas fossem distantes e as visitas difíceis de serem realizadas, então a mãe colocava moedas que poderiam um dia ser usadas pela filha para uma emergência financeira. Esse era o segredo delas. Atualmente a confecção da peça é ensinada em escolas, onde se faz uma fenda para servir de cofrinho da garotada. 

Outras mulheres que também faziam giramundos eram as curandeiras que, enquanto teciam e montavam, rezavam pelo doente em questão. Essa costura feita de orações (olha o poder!) era entregue ao doente como amuleto para sua recuperação.

Essa peça linda que pode ser pequena como uma bola de golfe ou grande como uma de basquete também era muito usada para enfeitar casas durante festas, servindo de boas vindas e votos de felicidade para quem estivesse presente. Imagina, uma varanda cheia de giramundos, todos coloridos!

Giramundo, estrela da felicidade, segredo, carambola... são tantos nomes para este objeto lindo! Mas o que mais me chamou à atenção é o fato de que ele nos remonta invariavelmente à ancestralidade, aos mistérios de mulheres que usavam de suas possibilidades e poderes para manter a continuidade e a preservação da vida.  

O mundo gira, os tempos mudam, vidas vêm e vão, mas existe uma magia concretizada nesse objeto e que, independente da época ou de quem o faça, é ainda sentida, captada e percebida por quem o recebe. Bruxaria da melhor qualidade!

Petisco: escute uma música que te faça sentir feliz e sentir a delícia de ser herdeira dessa magia que também é sua!

domingo, 16 de dezembro de 2018

Num dia 16

Uma princesa
Um plebeu
E uma criança que mal nasceu
E se foi

A maldição da ganância
Que bota o amor pra correr
E que volta, quase que ao contrário
Para vê-lo novamente nascer

O menino que se vai antes do tempo
O homem que se retira mais cedo
Antes do Sol raiar

O tempo, que não volta, mas tenta
Em outro momento-lugar
É a fé, a coragem e a vida
Que persiste, insiste:
É essa que veio reinar.

domingo, 3 de junho de 2018

Treze de maio

O papel é um lindo que aceita tudo, inclusive a ideia de que somos livres.

A escravidão de negros, que é a mais próxima da história do Brasil, tinha o caráter físico de dominação, evidente, mas era um pouco mais cruel do que "apenas" físico.

Antes de trazer as pessoas para cá, os dominadores obrigavam os povos a dar sete voltas ao contrário da árvore-mãe de sua tribo, sabendo que isso simbolizava renegar sua força, sua ancestralidade, sua devoção e o cerne de sua existência neste mundo. Cruel.

Cruel e, sobretudo, ineficaz.

Assim como, para além do caráter econômico, em nossa escravidão contemporânea percebemos também o fator psicológico, o social, o cultural, etc..., temos a oportunidade de libertação ao nos ligar com nossa essência, que tudo é.

Seja por meio de um transe ritualístico, de um momento intenso de prazer, do calor de um abraço ou da paz de se atender interna e verdadeiramente, experimentamos a liberdade, ainda que estejamos aprisionados no corpo físico e sujeitos a todos os emaranhados de dominação que existem na matéria. Somos, portanto, verdadeiros escravos de espírito livre.

Parece confuso, mas já que o papel é democrático, a linda da Cecilia Meireles registrou em seus escritos o seguinte: "Liberdade: uma palavra que o sonho humano alimenta. Que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."

Petisco: Canto das Tres Raças, na voz de Clara Nunes

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Às vezes - um pouco - doente


Às vezes a gente fica um pouco doente: a gente teima em algum comportamento e o corpo diz: pare, agora. E a gente é obrigado a mudar tudo e dar atenção para quem a gente devia ter dado atenção. O corpo? Também.

Antes de chegar no nível da fala, o pensamento pode ser mudado. Antes de chegar no nível do hábito, o pensamento também pode ser mudado. Mas ele nunca pode ser mudado se não for percebido.

Perceber é o primeiro estágio para a mudança de pensamento. Sim, a mente não dá trégua e não quer mudar assim, sem mais nem menos. Mas querida, minha vida é um Universo e o que eu precisar mudar em você para abraçar, explorar e me deleitar nesse Universo eu vou. Sinto? Nada, quase nada, só uma pontinha de apego que, a mando da mente, corre comendo poeira, tentando me atazanar.

Às vezes, um pouco, doente. Percebo, aceito, investigo, descubro, combato e sigo adiante. Gratidão ao chuveiro, à cama, ao alimento e aos escritos que me acompanham enquanto o corpo fica aqui, quentinho e quietinho, conversando, argumentando e silenciando a mente.

Petisco? Um vitaminado, por favor! ^^

domingo, 1 de abril de 2018

Hoje é Páscoa


Hoje é sobre chocolates, sobre almoço de domingo, sobre feriadão, viagem, curtição, bebedeira e música alta.

Antigamente era sobre o florescimento da primavera, sobre a libertação dos hebreus diante dos egípcios, sobre a ascensão de Jesus aos céus, sobre a Lua cheia... antigamente era sobre o sagrado. Não é mais.

Eu sinto a Páscoa diferente de como sinto o Natal. Por mais que haja o apelo comercial, ele parece menos alarmante do que no final do ano - e talvez menos possível, já que não existe um salário extra nessa época do ano.

De qualquer forma a reflexão sobre a conexão essencial se perde na nossa sociedade e vejo muito mais gente se endividando para pagar ovo de chocolate do que procurando sentir o sagrado deste momento.

Tudo isso é válido também, já que estamos nesse constante ciclo de experiências e aprendizado e se optarmos por beber, curtir, meditar, comer ou dormir o dia inteiro temos todo o direito também. Só penso que para tudo devemos tentar ver sentido, senão nem mesmo a curtição terá seu proveito. Bom: a Páscoa está aí: o que vamos fazer?

terça-feira, 13 de março de 2018

Aceitar a tristeza para ter mais alegria


Vivemos numa sociedade em que a tristeza é marginalizada e a busca pela satisfação constante é fomentada de tal maneira como se fosse indispensável estar o tempo todo feliz... e como se fosse possível. Logo, a existência da tristeza ainda é contestada, porém sua utilidade é inegável.

Estar triste é indesejado, ninguém deseja se sentir mal, mas assim como todos os outros sentimentos, ficar triste é algo que surge sem que a gente escolha, algo como uma reação instintiva a determinado estímulo associado ao estado emocional do momento em que ele, o estímulo, ocorre.

Você não precisa ser adepto à ideia de forçar um comportamento, afirmando o tempo todo que é feliz para tentar se convencer. Não é bem assim que funciona; existem inúmeros fatores internos tão emaranhados que nos impede de simplesmente alterar o humor a partir de um único comando.

O que também não justifica prolongar o sentimento de tristeza emendando numa autopiedade, dependência afetiva, abusos de substâncias químicas e atitudes intempestivas que podem trazer danos maiores e permanentes.

Tudo é de se sentir e de se viver. Alegria e tristeza podem ser antagônicas, mas são complementares. Assim como todos os opostos da Natureza. Quando a gente se permite aceitar no momento em que a tristeza chega, progressivamente, os momentos de alegria tendem a ser mais lúcidos também.

Petisco: Ludovico Einaudi, Waterways. Uma belíssima música instrumental que faz a gente passear por dentro de nós mesmos.

Olhando para o céu


Quando eu olho pro céu eu vejo o quanto toda a paisagem embaixo é pequena.

Isso me conforta, me contenta e me anima. Saber que toda essa bagunça é ínfima perto de todo o Todo que existe. 

A gente vê tanta vida ir embora que às vezes parece normal viver meio morto... Mas não é. Nem normal, nem digno, nem preciso.

Na verdade viver meio morto é uma perda de tempo. Porque passado o momento de assimilação do aprendizado pela quase morte, sabemos que o ar pode voltar a preencher nossos pulmões, então por que não sentir isso também?

Respire fundo agora. Mesmo.

Olhar pro céu e ver as nuvens deslizando lentas e constantes nos faz pensar que nós, tantas vezes nos sentindo tão esfacelados, também podemos seguir nossos caminhos com a mesma integridade que a Natureza nos demonstra, porque somos parte dela.

Este mundo foi construído, mas fazemos parte é do céu.

Petisco: We Are All Made Of Stars - Moby