sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Bate-papo com o Além

  
Primeiro livro escrito por Silveira Sampaio após a morte, "Bate-papo com o Além" é um conjunto de crônicas que ele escreveu a partir de experiências comuns no dia-a-dia do outro lado da vida, mas que para nós, num primeiro momento, parecem um tanto absurdas.

Ele fala sobre se locomover sem precisar caminhar como fazemos aqui, fala da ausência da necessidade de comida, agasalhos ou guarda-chuva, das situações e posturas com as quais nos deixamos levar até desenvolvermos vícios e outros desvios de conduta... Fala do que é ser humano, em carne ou em espírito.

Utilizando da norma culta ao longo das páginas - maneira clássica de se escrever sobre o lado de lá durante o boom espírita dos anos 80 no Brasil, Silveira Sampaio questiona o próprio comportamento ao final de cada crônica, num misto aparente de ironia e pseudo-ingenuidade.

Um livro suave, abordando temas profundos com certa superficialidade, para não chocar quem caminha nos primeiros passos da doutrina Espírita e ao mesmo tempo impossível de decepcionar os curiosos sobre o tema.


Petisco: "Chega de Saudade",  bossa nova delicinha.

Só por Hoje e para Sempre



De uma maneira muito lúcida, Renato Russo entra na proposta da clínica de reabilitação Vila Serena. Transformado em livro, o relato real do início da luta contra a dependência química do líder da melhor banda do rock nacional do Brasil é um deleite para os fãs e uma lição de vida para todos.

Ao longo do livro, Renato Manfredini Junior aborda de maneira muito aberta diversas situações ao longo do caminho até o "seu fundo do poço", intitulado por ele mesmo dessa forma.

É possível fazer uma análise fria do processo de desintoxicação e perceber, ao mesmo tempo, o processo de auto-enfrentamento dos desvios de conduta que, por base, contribuem para o desenvolvimento de vícios.

Segundo a promessa, Só por Hoje e para Sempre é o primeiro de uma série de livros que retratam a evolução de um processo que vai além da desintoxicação em si, se revelando uma verdadeira caminhada para a reinvenção de si mesmo. Particularmente espero pelo próximo volume pois ao terminar a leitura fiquei com um gostinho de quero mais.


Petisco: "Vinte e Nove", de... Legião Urbana

sábado, 23 de janeiro de 2016

A Noite da Grande Magia Branca



A Noite da Grande Magia Branca é um livro muito interessante que envolve natureza, cidadania, fantasia e folclore regional disseminado no Sul do Brasil.

A curumin Teçaya, maga nata, junto com outras meninas de sua tribo, é sequestrada durante uma noite e leva amos para conseguir reunir forças e o aprendizado necessário para tentar enfrentar aquela que ordena as injustiças cometidas no local e que deseja manter o poder sobre todos que escraviza e domina.

Uma aventura muito bem escrita por Simone
Saueressig, suave e que aborda temas como auto-controle, respeito e muitos outros assuntos importantes para o desenvolvimento de uma criança e aprimoramento de adultos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Deve ser Difícil ser Você


Você não pede, manda.
Você não fala, exclama.
Deve ser difícil ser você.

Você não chama, intima.
Não se aborrece, briga.
Deve ser difícil ser você.

Às vezes até reconhece,
Mas não sei o que acontece:
você não faz acontecer.

É chateante. Não diga.
É estressante. Mentira!
Tudo gira em torno de você.

Todos te devem,
Todos te julgam.
Alguém devia
Querer saber
Como vai você?

Todos toleram.
E que tolerem!
Não vou mudar,
Pra que mudar?
Por sua causa?
Ãh? Você?

Mas que bobagem
Essa vidinha:
Você na sua
Eu na minha
E ninguém por mais ninguém.
Ééé... deve ser difícil ser você.

Poderosa? Sem dúvida!
Querida? Ainda.
Tolerável? Graças às mil boas almas que cruzam o teu caminho.

Mas e as almas de lá e de cá que te inspiram,
Te ajudam
E cuidam de ti de um jeito que você jamais cuidaria de alguém como você?
Mas... e você?
O que a tua própria alma te diz de você?
É muito difícil ser.



quinta-feira, 20 de março de 2014

O Santo e a Porca



Esta obra, datada de 1957, retrata basicamente o conflito entre o materialismo e a fé. Ariano Suassuna, com sua maestria em criar histórias irreverentes e de profundidade moral é o autor da obra.
 
Três mulheres apaixonadas procuram resolver suas questões amorosas, encaminhando o andamento de seus possíveis casamentos, enquanto o patriarca da família de duas dessas mulheres divide-se, alucinadamente, entre sua devoção por Santo Antonio e sua avareza, consolidada em uma porca de madeira cheia de dinheiro dentro, herdada de seu avô. O apego à porca aumentou desde o falecimento de sua esposa, a quem devotava imenso amor e dependência emocional. Há também a questão de sua filha, com quem pretende casar com um homem de posses que lhes garanta o futuro.

A confusão se instala pela constante desconfiança de Eurico, dono da porca, sobre todos os outros frequentadores de sua casa. Ele fica sempre à espreita de flagrar alguém furtando seu dinheiro. Além deste fato, Caroba, uma das pessoas que trabalha em sua casa, com sua astúcia e boa vontade, cria toda uma situação para que os casais enamorados possam se juntar sem que haja escândalos perante a sociedade e nem desgostos sentimentais.
 
No final da trama Eurico descobre que de fato foi furtado e, desolado, cai em desespero. Graças à astúcia de Caroba e à contribuição de todos os outros, os entraves que impediam que os casais ficassem juntos foram eliminados. O sumiço da porca pouco depois também foi solucionado e, absorto em sua avareza, Eurico nem havia se dado conta de que todo o dinheiro que havia lá de nada mais valia, pois fora substituído ao longo dos anos. Irredutível, Eurico permanece preso ao seu apego pelo objeto, e embora todos em torno dele terem tentado dissuadi-lo de permanecer só e juntar-se a uma grande família que se formava, optou por permanecer sozinho, dividindo-se entre as conversas com Santo Antonio e as lamúrias acerca do fato de ter uma porca de pouca valia para lhe garantir a tão sonhada velhice tranquila.

A história nos remete ao quanto frequentemente nos preocupamos com questões secundárias ao nosso bem-estar e deixamos de desfrutar o que a vida tem de melhor a nos oferecer. Uma velhice tranquila seria muito mais efetiva estando rodeado pela família, com seu sustento garantido - já que o noivo de sua filha era filho de um fazendeiro possuidor de muitas terras, do que sozinho e preso a o que lhe resta de material.

Levando essa história para a vida de cada um de nós, dentro de uma comparação, certamente seremos capazes de perceber que nossa vida continua, apesar das "porcas", dos "santos" e das situações do passado que insistimos em nos devotar cega e continuamente. Qual é a nossa verdadeira riqueza?

segunda-feira, 17 de março de 2014

Jacinta



O que leva uma pessoa a enfrentar as mais terríveis adversidades e seguir adiante? Será um ideal, uma teimosia, uma tolice? Ou será um apelo desesperado da consciência, clamando para ser levada em consideração na hora de se encarar a vida? Seja como for, esta foi a opção de Jacinta, magistralmente interpretada por Andrea Beltrão, que esteve em cartaz no SESC Vila Mariana.
 
Eu, como atual estudante de teatro, pude perceber a diferença de assistir a uma peça vendo o ator como alguém distante, dono de um sonho que também é meu, e como colega de trabalho, alguém que compartilha dos mesmos desafios e deleites do ofício de ser.
 
Sim, o parágrafo acima termina com a palavra “ser”, pois quando se busca preencher a essência, escutando e seguindo a consciência, simplesmente se é e nenhum adjetivo pseudo-complementar poderia concluir de fato tal afirmação.
 
Persistir, ir adiante, enfrentar os traumas, os fantasmas e as tormentas do dia a dia é um trabalho para cada um de nós: diretores de nossas próprias peças, condutores de nossas próprias vidas.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Sidarta


Um romance, uma ficção, uma utopia. Uma vida narrada por si mesmo, uma autobiografia, uma experiência transcendental. Características de Sidarta, escrito em 1922 por Herman Hesse. 

O romance, alusivo ao mestre ascenso Sidarta Gautami, o Budha, trata com leveza e realismo as sutilezas energéticas a que estão expostos os seres durante a experiência humana. 

A personagem central da história é um garoto nascido em família abastada, porém voltado aos costumes religiosos de meditação e busca do Eu superior. Ainda criança Sidarta decide deixar a família para trilhar a senda espiritual e alguns anos depois, no início de sua vida adulta, ele novamente muda de rumo e decide buscar a si mesmo junto ao homem comum, vivendo uma vida comum, de preocupações e rotinas comuns. 

Luxúria, dinheiro, jogos e distrações ébrias fazem parte da nova vida de Sidarta, que durante algumas décadas julgou-se capaz de assimilar este tipo de vida em detrimento de escutar a voz de sua centelha divina. Funcionou, até uma certa noite quando, sentindo-se verdadeiramente morto, optou por abandonar novamente sua “vida”, deixando para trás as propriedades, os negócios e a amante. 

Voltando a viver como um renunciante às coisas do mundo, Sidarta percebeu o que lhe faltava e encontrou o equilíbrio entre o mundano e o divino, entre o material e o espiritual, entre o ter e o ser. 

Percebe que todas as doutrinas são falhas, a partir da constatação de que não se pode amar palavras e passa a abençoar a tudo o que existe. Constata a existência do tempo presente como sendo o único real e encontra-se, finalmente, a partir da reintegração com a Mãe Natureza.

Para mim, Sidarta é mais do que um livro sobre curiosidades do que venha a ser a prática do auto-conhecimento sob a ótica da análise entre a alma e a matéria e tudo o que cada um desses cenários envolve. Sidarta é, por si só, um objeto de estudo nesse caminho, uma sugestão ao perdão de si mesmo, um convite à expansão da consciência e um retrato da integração do eu à unidade, resultando naquilo que se chama de paz.